Parece ridículo, e é. Eu comparar a minha solidão a de Jean-do, autor do livro “ escafandro e a borboleta”. Na verdade, não conheço o livro, nunca vi nem a capa, mas acabei de ver o filme. À muito tempo eu corria desde filme. Quando ainda estava no cinema, o titulo e o pequeno texto de apresentação já me intrigavam, tanto que não quis vê-lo. Certo dia, fui até o cinema perto de casa, andei 6 quadras na certeza de assistir a esse filme, E já na bilheteria, eu escolhi outro que agora nem me lembro o nome e nem do filme.
A verdade é que talvez relutantemente eu corria da minha verdade, sabotando-me quase sempre para assim não me ver frente a frente comigo mesmo. Hoje, a resignação. Fui na verdade atrás de “dentro dos muros da escola”, também cinema francês, não havia na locadora a 3 quadras de minha casa, escolhi “entre os muros da prisão” e já estava pensando em um filme mais leve quando o colega Ciro, que trabalha na locadora disse “ esse aqui? Com certeza você já viu....viu?. pronto , ali estava a minha frente a caixinha de dvd da qual eu correra por muito tempo dentro dessa mesma locadora. “ ok, vou levar”. Finalmente a coragem de se enfrentar.
Caminhando para casa, com pensamentos longínquos, uma leve chuva, como que anunciando finalmente o fim da espessa chuva que caiu quase toda a tarde, andando pela calçada ainda bem molhada, me começaram a aparecer os velhos pensamentos, onde eu me ponho frente a minha aflição de estar parado no lugar. Já fazem 5 anos que pego filme na mesma locadora, praticamente o mesmo tempo em que o Ciro trabalha por lá, pois afinal, sempre pego filmes com ele. 5 anos que ando por essa calçada. Tudo bem, a dois anos eu diminui muito a minha freqüência. Antes de voar eu passava os finais de semana enfurnados em meu escritório ou em casa, na Internet ou vendo filmes. Sim, isso é praticamente paralisia cerebral.
A verdade que quase 2 anos desses 5 eu passei amasiado, A minha ex era uma boa companheira para filmes, dormia na metade deles, mas dificilmente reclamava dos títulos que trazia para que víssemos, já que ela muito raramente se prestava a ir á locadora escolher um titulo. Mesmo assim, a rotina com ela também se prendia a mesma paralisia cerebral, aliás, acho que a dela se encontrava um pouco mais profunda. Éramos duas almas perdidas dentro de corpos á deriva.
A minha vida quase enfadonha me permite desenhar um escafandro pesado sobre águas turvas, mas eu seria extremamente presunçoso em tentar comparar meu escafandro com o de Jean-do. O autor, editor da revista Elle sofreu um forte derrame e ficou quase que totalmente paralisado, segundo ele mesmo, as únicas coisas que funcionavam direito eram o seu olho esquerdo, seu cérebro e suas memórias.
A sua vida se resumia agora aos atendimentos das duas lindas médicas francesas, periodicamente de sua ex-esposa, mas constantemente de sua redatora. Isso mesmo, sua fonoaudióloga criou um sistema para que ele pudesse se comunicar com uma seqüência de palavras ditadas por quem o acompanhasse e sua colaboração com piscadelas de seu olho esquerdo. Ele escreveu um livro, dessa forma, sua cabeça era o suficiente para o que ele precisava fazer. O livro virou o filme, muito tempo depois de sua morte.
Ele sempre se situa dentro de um escafandro, em meio do oceano. Onde ele bóia, mas está preso dentro dele, e não se comunica com ninguém. Em um certo momento, seu olho, seu cérebro e suas memórias já não são mais suficientes, e ele adota a “borboleta” que é uma forma de “ imaginar” as coisas, e voar de forma colorida para onde quisesse.
Todos temos nossos escafandros, que nos limitam, que nos deixam imóveis. No caso de Jean-do era sua limitação física, mas a maioria dos escafandros que conheço são psicológicas mesmo. Não posso dizer com certeza nem o que acontece comigo, seria demasiadamente pretensioso eu agora discorrer sobre os escafandros de outras pessoas.
Mas o meu, me leva sempre para o fundo, sempre para dentro de mim mesmo, e quando estou lá, não gosto do que vejo.
Talvez eu carregue comigo a minha solidão mais pungente, e use em muitos casos “borboletas” para sair do profundo frio. Minha borboleta tem vários formatos e meios, caminha e voa, se comunica constantemente, mas de forma profunda. Afinal, é para isso que ela serve, mostrar-me um universo mais bonitinho.
Mas não posso deixar de refletir sobre o quanto é pesado o escafandro para as pequenas asas da borboleta.
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