Para se começar é necessário mergulhar de cabeça. Mas isso não significa a perda da consciência, diria, no máximo, um lapso de embriaguez fotográfica. De nada adianta pensar demasiadamente se isto apenas faz o fotógrafo sentar a frente de seu computador ou deitar-se na doce companhia de seus livros. A fotografia exige mais do que o estudo pleno da técnica e o conhecimento da linguagem, exige algo além, invisível e fugidio. Algo extra-quadro: emoção! Certo, falando assim beiro o piegas – para não dizer que vou ao cerne do piegas – mas hei de até o final deste texto livrar-me dele.
Emocionar-se numa foto é perder-se dentro dela. “Algumas imagens morrem dentro de nós e em outras, morremos dentro delas”. Tal ferida de morte é o que procuro dentro do quadro, meu “punctum”, meu “além ver”, meu extra-quadro. Algo de mim que está ali cravado na cena e que somente posso reconhecer quando esta se deixa domar pelos ângulos retos do enquadramento.
Atente: não há diferença entre a fotografia e o visor. No pentaprisma todo movimento passa a não existir lentamente, em câmera lentíssima, o mundo se esfria até congelar. O tempo se eleva ao sentido Proustiano, ao sentido simples da poesia de Manoel de Barros, ao sentido exato-singular e amaldiçoado de Bresson. Um tempo que não mais pertence ao mundo. Cá, dentro da caixa escura, aprisionado, deixa-de-ser para ser. Migra do topor ilusório de seu estado cinético para o mundo reflexivo e estático da fotografia. Aprisionado no largo horizonte do papel.
O visor é a imagem perfeita! Nele o olho se deita em desafio ao “dedo masturbatório” (foi Bresson que cunhou o termo, não se ofenda por mim, se ofenda por ele...ou como eu, se deleite). O olho desafia o dedo a executar a sentença – que sempre se anuncia bruta – pelas lâminas finas da guilhotina. Porém, o dedo erra em demasia. Cria um volume estrondoso de “velhas novidades”, de crimes imperfeitos, de maneirismos técnicos, de sofridas fatias da realidade, de ilusões que agradam a maioria tal qual uma velha piada distante de sua graça original. Nesta era “digital” a masturbação fotográfica devia ser proibida, os dedos punidos pelas suas respostas sem graça e o senso comum fuzilado. Todos deviam temer ao pecado das fotos sem graça, verdes em seus pés, frutos colhidos fora de época.
O olho administra hoje um volume de imagens maior do que a retina pode armazenar. O grande fotógrafo não será lembrado pelas milhares de imagens, pelos quatro cantos visitados, pelas aventuras e pelo exótico. Mas por meia dúzia de projetos e poucas dezenas de imagens. Será lembrado pelas frutas maduras, pelo cheiro fresco de sua obra, pela reflexão aquém do visor e além da fotografia.
Que o turbilhão de pixels não ocupe o espaço das boas imagens.
Saudações fotográficas,
Osvaldo Santos Lima
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
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